O que a obra mostra, como foi feita e o que está inscrito nela.
Descrição do conteúdo
As bonecas Ritxoko do povo Iny são todas feitas por mulheres. Na língua materna Iny é Ritxoko, na fala feminina, e Ritxoo, na fala masculina. São as primeiras artes indígenas acolhidas em espaços museológicos. As antigas Ritxoko eram feitas sem braços e sem pinturas. Ao longo do tempo elas foram modificando: figuras de animais, aves e imagens representativas de personagens de histórias e contos Iny, as quais ainda são feitas para tornar ativa a história e valorizar as personagens de contos do povo Iny. Expressam o cotidiano da aldeia do povo Iny. O lugar de guarda destas peças, de grande importância, muitas vezes são as casas de reza, a habitação de anciãs e anciãos, ou um local comum indígena que abriga diversas celebrações. Grande parte das peças são de utilidade no cotidiano da aldeia e com este trabalho percebem as peças para a admiração e para guardar a memória ancestral. O processo de feitura das mulheres também tem relação com os processos dos ciclos menstruais e particulares das indígenas que as confeccionam: a mulher que estiver em seu ciclo, não poderá compor a boneca, por exemplo. As mulheres Iny utilizam os seus conhecimentos técnicos ancestrais utilizando-se de matérias-primas e etapas certas para confeccionar as Ritxoko. As diversas figuras esculpidas de barro são enfeitadas com traços de preto, feitos com pigmento natural de Jenipapo, e de vermelho, pigmento natural de Urucum. No processo de feitura das peças, o primeiro passo é encontrar uma árvore chamada cega-machado, em Iny rybè é hãdena, e recolher seus galhos secos. Colocam-se os galhos para secar ao sol e depois os queimam transformando-os em cinzas, recebendo o nome em Iny de rybè de adenadè. Adenadè é próprio para misturar ao barro. Pega-se o barro em lugar apropriado e, após colocá-lo de molho para transformá-lo em argila, é misturada à cinza, esta técnica serve para dar liga à argila. Com essa mistura, as figuras são selecionadas em suas memórias e confeccionadas. A cerâmica representa o ato de aprender. Aprender a fazer um vaso de barro é uma necessidade: panelas e todos os utensílios são feitos de cerâmicas. A partir desse processo de aprendizado e memória, surgiu a boneca feita pelas mulheres Iny: com as sobras de barro elas faziam as bonecas. Atualmente fazem figuras de jovens com pinturas. Os mitos e histórias que são narradas pelos Iny, a relação entre o povo Iny, com o rio Araguaia (Berohoky), a fauna, a flora, as relações sociais e familiares Iny no cotidiano. A palha presente na obra, uma fibra grossa, é extraída da árvore hãdena. Utilizada cotidianamente nos dias de rituais pelas meninas Iny.
Ref.: Baseado em texto da consultora Aline Rochedo Pachamama (Churiah Puri) para a Coleção de Arte Indígena do Museu Nacional de Belas Artes, Consultoria de 2025 In.: Documento “INFORMAÇÕES INY karajá por Aline Rochedo Pachamama setembro”.
“(...) a confecção de bonecas de cerâmica – ritxoko (...). Mesmo quando são confeccionadas sob encomenda dos torí, para serem comercializadas como arte indígena, ainda assim, mantém seu caráter educativo, pois suas figuras falam da caça, pescaria, colheita e distribuição de alimentos; dos cuidados com as crianças e dos rituais de passagem de idade e morte; da dança dos ijasó e da cerimônia do hetohoky; além de um sem-número de seres míticos e sobrenaturais como beduroni, lateny, wadjoromani etc.(...) Antes das bonecas de argila, esses brinquedos eram feitos de cera de abelha. Os exemplares (...) trazem enfeites de penas e de fibras de algodão, revelando a importância dos adornos corporais para o grupo. O aumento do contato (...) com segmentos da sociedade nacional não indígena, a partir de meados do século XX, provocou grandes mudanças no modo de fazer as bonecas (...) passaram a ser queimadas ou assadas, entre outros motivos, para evitar que se quebrassem com facilidade, no transporte das aldeias para as cidades dos compradores. Esse processo de transformação da argila em cerâmica também garantiu uma plasticidade maior na modelagem. Muitas cenas passaram a ser representadas, a figura humana adquiriu braços, pernas dobradas, mulheres esculpidas com crianças, bacias e potes nos colos, cestos nas cabeças etc., além de grafismos desenhados com tintas vegetais, principalmente nas cores preta e vermelha, substituindo o grafismo em forma de incisões. Todas essas mudanças introduzidas na maneira de confeccionar as ritxoko fizeram com que cada vez mais elas fossem sendo desejadas no mercado de arte e artesanato indígenas. Hoje, muitas ceramistas vendem suas ritxoko, obtendo renda para comprarem objetos de torí, como roupas, calçados, alimentos, mobiliário, objetos eletrônicos e até matérias-primas para a confecção de enfeites corporais, como miçangas e fios de algodão industrializados. No contexto de confecção das ritxoko existe sempre uma ceramista modelando uma figura e contando histórias do tempo antigo, rememorando as conquistas dos heróis fundadores, os conflitos com outros grupos étnicos e os mitos que constroem a identidade do grupo. Por isso, elas dizem que fazem as bonecas para ensinarem às crianças e aos jovens as histórias do povo Iny, para eles aprenderem a ser Iny. O formato, as decorações com o grafismo e os enfeites que as bonecas recebem indicam o gênero e a classe de idade. Representam ainda os rituais e os seres sobrenaturais. É comum as meninas receberem de presente de suas mães ou avós uma cestinha weriri contendo várias bonequinhas representando a família, em suas várias classes de idade, desde o bebê recém-nascido, pintado de urucum, passando por várias fases, incluindo o casamento, o nascimento dos filhos, até o casal de velhos, com seus corpos já encurvados. Nesse conjunto, as ritxoko são ricamente pintadas, recebendo, cada uma, desenhos corporais específicos, que definem se é homem ou mulher, se é criança ou adolescente, se a moça está em idade de casar etc. Atualmente, as principais representações das bonecas cerâmicas são: cenas do cotidiano do trabalho doméstico, pescaria, caçada, cuidados com as crianças, enterro, cenas de rituais, como o hetohoky, dança dos Aruanãs. Também é muito comum as esculturas representarem seres sobrenaturais e figuras míticas, como o Kboí, Tyraheni, Wadjaromani, guerreiro Teribré, Halokoe etc. Além das figuras humanas e dos seres sobrenaturais, muitas ceramistas esculpem animais da fauna regional, como jacarés, tartarugas, arraias, veados, cobras, papagaios, tamanduás, antas, entre outros. Eles são chamados de irodoxumo.”
DE LIMA, Nei Clara e LEITÃO, Rosani Moreira (Organização). Comunidades Iny Karajá. Iny Tkylysinamy Rybèna : arte iny karajá : patrimônio cultural do Brasil / Comunidades Iny Karajá. IPHAN. Goiânia-GO, 2019. Disponível em: <." target="_blank">http://portal.iphan.gov.br/uploads/publicacao/livro_arte_iny_karaja_patrimonio_cultural_do_brasil.pdf>.