Autores – MNBA (DONATO)
PORTO ALEGRE, Manuel José de Araújo
- Data de nascimento
- 20/11/1806
- Local de nascimento
- Rio Pardo, Rio Grande do Sul, Brasil
- ID no DONATO
- 24
Nome
PORTO ALEGRE, Manuel José de Araújo
Nome (etiqueta)
MANUEL DE ARAÚJO PORTO ALEGRE
Sexo
Masculino
Data de nascimento
20/11/1806
Local de nascimento
Rio Pardo, Rio Grande do Sul, Brasil
Data de falecimento
29/11/1879
Local de falecimento
Lisboa, Portugal
Biografia
Natural da cidade de Rio Pardo, na então denominada Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, desde cedo revelou seu pendor ao desenho trabalhando em cenografia na capital gaúcha. No Rio de Janeiro, a partir de 1827, foi aluno de Debret e Grandjean de Montigny. Mais tarde, na França, foi discípulo de Barão Gros, grande pintor neoclássico, aluno de David. Porto Alegre foi o quinto diretor da Academia Imperial (1854-1857), onde realizou substanciais reformas no ensino. Foi grande incentivador dos novos valores que surgiam no campo das artes plásticas. Poeta, jornalista, crítico e historiador de arte, fundou e dirigiu as revistas "Niterói", "Lanterna Mágica", "Minerva Brasiliense" e "Guanabara". Escreveu ainda para teatro. Tornou-se patrono da cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras, e foi secretário do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Ingressando na carreira diplomática, foi consul-geral do Brasil na Prússia (1857), na Saxônia (1860) e em Lisboa (1866), onde faleceu em 1879. (Banco Safra) (GG)
Seu nome real era Manoel José de Araújo, modificado para Pitangueira, por espírito nativista, quando da Independência, e mais tarde chegando a forma definitiva, Manuel de Araújo Porto-alegre, sendo equivicada a grafia Porto-Alegre que alguns de seua biógrafos utilizam. Orfão de pai aos cinco anos, tendo perdido aos doze o padrasto, tinha 16 quando se empregou como ajudante na oficina de relojoaria do francês Jean Jacques Rousseau, o qual, tendo em vista seus pendores para o desenho, estimulou-o a estudar com seu compatriota François Ther, recém-chegado à cidade. Pouco mais tarde teria algumas lições com o retratista Maciel
Gentil e com o pintor decorador João de Deus, passando a ganhar a vida como pintor profissional. Decidido a ir estudar com Debret no Rio de Janeiro, depois de ter visto uma reprodução do "Desembarque da Arquiduquesa Leopoldina" do mestre francês, só em fins de 1826 conseguiu embarcar para à Corte, onde chegou a 14 de janeiro de 1827. Só treze dias mais tarde estava matriculado como aluno fundador da Academia Imperial de Belas Artes, na classe de Debret, de quem se tornaria em breve dos mais chegados amigos. Na Academia foi também discípulo de Grandjean de Montigny, tanto que na Exposição Escolar de 1830 compareceu com obras de pintura e arquitetura. Seu interesse pela arquitetura era aliás muito grande, e prova disso é ter estudado, quando em Roma, em 1834, com o famoso arquiteto Canina; muitos foram, de resto, os projetos de sua autoria, depois que retornou da Europa em 1837 - entre eles o edifício da Igreja de Santana (não executado), e a antiga sede do Banco do Brasil na Rua da Candelária (demolida em 1937) e as obras de reforma e ampliação dos Paços da Cidade e de São Cristóvão e da Alfândega do Rio de Janeiro. Mas, voltando aos
tempos de sua formação, acrescente-se que também cursou a Escola Militar, estudou Anatomia e Fisiologia na Faculdade de Medicina e recebeu aulas de Filosofia de Frei Jose Policarpo de Santa Gertrudes. Todos esses esforços tinham apenas um escopo: prepará-lo adequadamente para a viagem à Europa, com a qual sonhava desde quando ainda residia na província. Com a abdicação de seu protetor, Pedro I, e o recebimento de uma inesperada herança, ao mesmo tempo em que seu mestre e protetor Debret se licenciava da Academia e retornava à Europa, com os originais da "Voyage Pittoresque" prontos para publicação, todas as circunstâncias concorriam para concretização de seus planos. Com efeitos, a 25 de julho de 1831 Porto-alegre seguia para a França em companhia de Debret, e já em fins desse ano estava matriculado na aula particular do célebre Barão Gross em Paris. Em 1832 inscreve-se na "École des Beaux Arts", que cursou com certo destaque. Morando num aposento da residência do arquiteto François Debret, irmão do pintor. Porto-alegre, durante o tempo de sua permanência em Paris, desfrutaria senão da intimidade, ao menos da proximidade de todas as celebridades que frequentavam a casa, como explicaria anos depois, em sua auto-biografia:
- A casa de Francisco Debret era um ponto de reunião de grandes notabilidades; e como o arquiteto era o primeiro mestre na arte de construir teatros, alí se juntavam também os memógrafos (cic) mais célebres e os músicos maiores, como Rossini, Auber, Boieldieu, Cherubini e Paer, não falando nas plêiades de pintores, escultores e outros homens de primeira plana. No centro desta sociedade, enciclopédia viva, colhe o jovem artista idéias gerais de muitas coisas, e sobretudo o gosto pelo estudo, e mais ainda esse respeito devido ao verdadeiro mérito e a todas as especialidades, porque no exmplo de tantos grandes homens aprendeu a respeitar os homens. Porto-alegre não cita os nomes dos pintores ou dos poetas com os quais conviveu, mas é fora de dúvidas que na Paris dos começos da década de 1830 seriam todos eles espíritos românticos, os corifeus da nova escola estética que vinha se impondo havia apenas alguns anos aos postulados do
neoclassicismo. Pinheiro Chagas, aliás, sustenta que o jovem brasileiro alistou-se na luta contra os clássicos, assistiu à "première" do "Hernani" de Victor Hugo e "foi um daqueles revolucionários da arte que, de gravata vermelha e de longos cabelos, se assenhorearam, por direito de conquista, da platéia do teatro francês nessa noite de luta em que se afirmou o triunfo da escola romântica". Em 1834 Porto-alegre deixava Paris e encetava uma longa excursão através da Europa, percorrendo sucessivamente Itália, Suiça, Bélgica e Inglaterra. Acompanhou-o na viagem à Itália seu dileto amigo e também ex-aluno de Debret na Academia Imperial de Belas Artes, Domingos José Gonçalves de Magalhães, o qual apenas dois anos antes se formara em Medicina e publicara seu primeiro livro, "Poesias". Cumpre acrescentar que Gonçalves de Magalhães seria um dos fundadores em Paris, em 1836, da revista "Niterói", da qual só apareceram dois números, mas que se constituiria o núcleo inicial do Romantismo brasileiro. Regressando ao Brasil em 1837, o artista parace ter publicado, nesse mesmo ano, algumas caricaturas satirizando Justiniano José da Rocha, o que levou Herman Lima a sustentar, em sua "História da Caricatura no Brasil", ter sido Porto-alegre o primeiro caricaturista brasileiro, sendo além do mais certo que fundou em 1844 o primeiro periódico do país ilustrado com caricaturas - a "Lanterna Mágica", de efêmera duração. Também em 1837 foi nomeado professor de Pintura Histórica da Academia Imperial de Belas Artes, cargo que desde a partida de Debret em 1831 vinha sendo desempenhado por Simplício Rodrigues de Sá. Pintor da Câmara Imperial em 1840, couberam-lhe nessa condição a execução e supervisão de trabalhos decorativos importantes, para a coroação de D. Pedro II, o casamento do Imperador com a Princesa Dona Teresa Cristina e os batizados dos Príncipes Imperiais Dom Afonso e Dom Pedro. Já no ano anterior realizara o pano-de-boca e cenários do Teatro São Pedro de Alcântara, inaugurado a 7 de setembro de 1839, representando "...o gênio das Belas Artes rasgando as espessas núvens da Ignorância e da Rotina, e dando ao Gosto o lugar que elas usurpavam. A direita vê-se a magnífica entrada da barra do Rio de Janeiro; à esquerda a Ignorância e a Rotina fogem espavoridas"...tudo conforme a descrição do Jornal do Comércio de 10 de setembro do mesmo ano de 1839. Desde 1838 professor interino de Desenho do Colégio Pedro II, como substituto do professor titular Gonçalves de Magalhães, Porto-alegre permaneceu lecionando na Academia de Belas Artes até 1848 quando, sentindo-se ostilizado por seus antigos colegas Félix Émile Taunay, Cabral Teive, José Correia de Lima e Auguste Moureau, solicitou e obteve sua transferência para a Escola Militar, embora tal transferência implicasse sua passagem de professor catedrático para professor substituto. A Reforma Jerônimo Francisco Coelho, ocorria pouco depois, acabrunhou-o ainda mais, reduzindo-lhe os vencimentos de maneira substancial, e levando-o a solicitar sua jubilação. Eleito vereador em 1852, nesse cargo desenvolveu tão ampla e fecunda atividade, que ao deixá-lo recebeu da Câmara um ofício no qual lhe eram agradecidos o zelo e a dedicação com que desembpenhara as suas funções.
Mais tarde, o Imperador Pedro II solicitava-lhe um esboço de reforma radical para a Academia Imperial de Belas Artes - o que foi feito, tornando-se Porto-alegre em 1854 diretor do estabelecimento, e implantando efetivamente as idéias que delineara em seu projeto. Assim, foram criadas novas cadeiras (inclusive a de Desenho Industrial), a biblioteca começou a funcionar com seu catálogo, foi melhorada a situação financeira dos professores e se ampliou o edifício da Academia, de modo a poder nele funcionar a pinacoteca, enquanto era dilatado de três para seis anos o prazo de permanência dos pensionistas na Europa. Todas essas reformas não se fizeram porém sem reações, desencadeadas sorrateiramente pelos mesmos desafetos que, alguns anos antes, tinham-no forçado a deixar a Academia. Imiscuindo-se junto ao Marquês de Olinda, os inimigos de Porto-alegre - Félix Taunay à frente - dele obtiveram a nomeação de Joaquim Lopes de Barros Cabral Teive para a cadeira de Pintura Histórica, à revelia do diretor. Indignado, Porto-alegre solicitou demissão do seu cargo em setembro de 1857, enviando ao Ministro uma carta que é ainda hoje um documento de grande dignidade:
- Vossa Excelência sabe que, quem combate hábitos de relaxação, não é amado pelos madraços; e quem é justo, sofre dos que contam com o poderio misterioso do empenho e do patronato (...)Por convicções que nunca renegarei, deixo aquela diretoria com a satisfação que todo homem de brio
encontra no cumprimento de seus deveres e muito mais quando altamente pugna pela causa da lei, da inteligência e da moral. Praticando além da pintura e da arquitetura, a literatura, Porto-alegre publicou os livros de poesia "Brasiliana" (1843), "O caçador" (1844), "O voador" (1844), "A destruição das florestas" (1845), "Brasiliana em três cantos" (1845), "O Corcovado" (1847) e principalmente o grande poema épico em mais de 20 mil versos "Colombo" (1866), bem como algumas peças de teatro "Angélica e Firmino", (1845); "A estátua Amazônica", (1851); "Os voluntários da pátria", (1877); etc., libretos para óperas ("O prestígio da lei", 1859, música de Francisco Manuel; "A restauração de Pernambuco", 1852, música de Gianini, "A véspera dos Guararapes", "A noite de São João", etc.) e traduções de peças ("Electra", de Eurípedes, "Lucrécia Borgia ", de Victor Hugo, "Cristina da Suécia", de Dumas Pais, etc.), ocupando nas letras nacionais um espaço todo especial, a meio caminho entre o neoclassicismo de sua mocidade e o romantismo de seus anos maduros. "Homem-tudo", como a ele se referiu Max Fleuiss, deixou publicado nada menos de 135 trabalhos de litaratura propriamente dita, 20 peças teatrais e quatro traduções. Jornalista, fundou e dirigiu "Niterói" (com Gonçalves de Magalhães e Torres Homem), "Lanterna Mágica", "Minerva Brasiliense" e "Guanabara", tendo colaborado com freqüência em vários outros, como o "Journal de l'Institut Historique de France", "Aurora Fluminense", "A Reforma", "revista Brasileira", "Nova Minerva" e "Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro". Finalmente, seja dito que Porto-alegre é o fundador da história e da crítica de arte brasileiras, e ainda hoje podem ser compulsados com proveito seus artigos e memórias sobre arte nacional, destacando-se "Memória sobre a antiga Escola Fluminense de Pintura", "Valentim da Fonseca e Silva", "Francisco Pedro do Amaral" e "Algumas Idéias sobre as Belas Artes e a Indústria do Império do Brasil", além de diversos artigos sobre música. Nomeado para a carreira consular em 1859 por Pedro II, Porto-alegre, desiludido da arte e dos artistas, assume seu posto em Berlim em meados de 1860, sendo transferido em 1862 para Dresden. Em 1866 foi mais uma vez transferido - agora para Portugal -, finando-se cerca de treza anos mais tarde na capital portuguesa. Uma de suas filhas, Carlota, casou-se com Pedro Américo. Seus despojos, trazidos em 1922 para o Brasil, foram transferidos sete anos mais tarde para Rio Pardo, onde repousam. Homem de atividades múltiplas e por vezes excludentes, Porto-alegre deixou obra pictórica pequena e de valor desigual, na qual se destacam retratos, como o de "Garret no Cerco do Porto", feito em 1833, quadros históricos, paisagens, interiores de grutas, alegorias e cenografias, etc. Não foi rigorosamente falando um grande pintor, mas um excepcional animador cultural, a quem muito ficaram devendo as artes, as letras e, numa palavra a cultura nacional. (JRTL, p. 417, 418) (GG)
ID no DONATO
24
PORTO ALEGRE, Manuel José de Araújo. Rio Pardo, Rio Grande do Sul, Brasil, 1806. Autores – MNBA (DONATO). Disponível em: https://tainacan-gestao.museus.gov.br/autores-mnba-donato/porto-alegre-manuel-jose-de-araujo-d24/. Acesso em: 6 nov. 2026.
(1806). PORTO ALEGRE, Manuel José de Araújo. Obatala. https://tainacan-gestao.museus.gov.br/autores-mnba-donato/porto-alegre-manuel-jose-de-araujo-d24/
PORTO ALEGRE, Manuel José de Araújo [Internet]. Rio Pardo, Rio Grande do Sul, Brasil: Obatala; 1806. [citado em 6 nov. 2026]. Disponível em: https://tainacan-gestao.museus.gov.br/autores-mnba-donato/porto-alegre-manuel-jose-de-araujo-d24/
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