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Metadados
ID no DONATO
1613
Local de nascimento
?, África Ocidental
Nome (etiqueta)
GRUPO CULTURAL SENUFO
Biografia
Deste povo matrilinear, a facção mais numerosa habita o norte da Costa do Marfim, distribuindo-se por outros países próximos. Cultiva principalmente o inhame, além do milho e do arroz. As suas idéias religiosas dizem respeito aos princípios criadores KATYELEEO – a mãe velha, que tem direito de precedência em relação a KOLOTYOLO – divindade masculina.
Antes do aparecimento dos seres humanos, e das diferentes fases para a socialização, os animais primordiais e antológicos eram a cabra, o crocodilo, a tartaruga, o camaleão e o calau. O calau, aparece nas esculturas STYEN, marcado pelo grande bico, um sentido fálico que é fixado na ampla imaginária em madeira, notadamente nas figuras que significam o processo da fertilidade e simbolicamente ditam o sentido da vida. O calau é um espécime dos sindactilos, que justamente é identificado por um tipo de córnea exuberante em forma de capacete.
Assim, são permanentes nos Senufo os motivos plásticos, de cunho zoolátrico, combinando-se com elementos humanos formadores da arte deste grupo cultural. Os conhecimentos sobre os deuses e o trabalho adquirem-se por intermédio da Sociedade do PORO, que compreende uma iniciação organizada por várias etapas e, que decorre ao longo de um ciclo de vinte e um anos, até atingir uma abertura progressiva do sentido do mundo, durante o qual são concluídos os ensinamentos sobre os rituais fúnebres dos seus membros. Todo homem adulto deve pertencer à Sociedade do Poro ou Gpo-Oro, e para os ferreiros existe uma sociedade Poro especial, como também para os entalhadores em madeira. Esses dois ofícios, o ferreiro e o entalhador, são destacados na cultura Senufo pelos conhecimentos tecnológicos que possuem e pelo poder de fixar nas máscaras, esculturas e objetos utilitários, toda a história religiosa e princípios sociais que fundamentam as organizações dos clãs, formadores da cultura Senufo. Outro elemento iconográfico das máscaras rituais da Sociedade do Poro é o Boi, especialmente a cabeça do boi, chamado KAGBA. Esta fica em armação de madeira, tecido e fibras naturais, lembrando o animal teatralmente introduzido durante os rituais fúnebres. Não seria exagero sugerir que há relação do Kagba com o nosso popular Bumba Meu Boi, em forma de estilo visual. Neste teatro popular a presença africana é fortíssima, notadamente na região nordeste do Brasil. As armações em cabeça de madeira, corpos em tecidos multicoloridos, balaios, cipós e sarrafos, constroem a estrutura da figura. O personagem Boi, totemizado em suas histórias de vida e morte – incorporou matrizes africanas que recriadas em espaço afro-brasileiro ganharam feições e tendências próprias. Certas máscaras intervêm por ocasião das cerimônias de iniciação e dos funerais. Uma delas, a GPELIHE, é facial e antropomorfa. Segundo a memória ancestre Senufo, a máscara Gpelihe é tão poderosa que é capaz de vomitar fogo. É máscara necessária nos rituais fúnebres, integrando-se aos secretos aprendizados dos membros da Sociedade do Poro.
Outra modalidade de máscara é a Poniungo, aberta horizontalmente, com ou sem dentes, algumas delas de aspecto terrível e ameaçador. Afasta os antepassados, as forças maléficas, os feiticeiros e as almas dos defuntos. O Poniungo ou Kponiungo integra-se àquela visão zoolátrica dos Senufo, que não isola os cinco animais fundadores da cultura e por isso aparecem isoladamente em cada momento decisivo da trajetória da vida, da festa e da morte. Assim, o camaleão é o elemento iconográfico básico da Poniungo, dando aos artesões em madeira, possibilidades plásticas de estilização e de serem, inclusive, sonhadores e intérpretes das visões fantásticas que o signo da morte e do medo, juntos, oferecem à própria máscara.
A Gpelihe é a máscara primordial dos Senufo e está ligada à divindade feminina – Katyeleeo, a grande mãe cultural. Está representada como uma bela mulher de cara oval, muito comprida e faces côncavas. O nariz longo e em eixo possui pequenas asas. A boca aberta deixa aparecer fileiras de dentes e contornando o rosto ocorrem apêndices complexos, cujos significados foram esclarecidos por Anita Olaze e Dolores Ritcher: “Entre os elementos laterais, alguns são puramente decorativos e enquadram no centro as orelhas. Na parte inferior, aquelas que, à primeira vista, parecem sugerir as pernas, em realidade são apenas a estilização das mechas laterais dum penteado tradicionalmente usado pelas mulheres que já tiveram filhos e evoca, ao mesmo tempo, o bico do calau, propício à procriação. No cimo da fronte (muitas das vezes franqueada de chifres curvos), erige-se um emblema. Simboliza, quando se trata de uma crista, os cultivadores, sob a forma eriçada dos espinhos dos coqueiros, os escultores, o pássaro, o pássaro representa os ferreiros, uma figura humana, os comerciantes ambulantes ( dyula )”.
A Gpelihe relaciona-se sempre com a fecundidade. Há as duplas, com duas faces alongadas ligadas no mesmo plano, e outras de latão, fundido pela técnica da cera perdida, que nunca são usadas, mas fazem parte do tesouro dos chefes. A concepção fertilidade marcante na Gpelihe embute o sentido cerimonial da morte. As passagens ritualizadas da concepção, nascimento e da própria ruptura com a vida – a morte encarnam na síntese da máscara Gpelihe, uma mundovisão Senufo, complexa, totalizadora da história do indivíduo na sua sociedade, marcadamente matriarcal e fixada assim, num aparato simbólico que evidencia e privilegia a fêmea – a mulher procriadora.
A estatuária em madeira apresenta estilo característico e é abundante. Um dos seus exemplos mais conhecidos possui uma estrutura funcional. Consiste, geralmente, na imagem de uma mulher em pé, tendo os braços afastados ao longo do corpo, as mãos ligadas ao baixo-ventre, as pernas presas a um grande cilindro. São as Deble, estátuas-pilão, símbolos de fecundidade, usadas ritualmente pelos iniciados da Sociedade do Poro. Segurando-as pelos braços elas tocam o chão num ritmo lento, para invocar os antepassados e obter as suas graças ocorrendo o mesmo nas cerimônias fúnebres. O cortejo das Deble visita as plantações, sacralizando o solo por ocasião da lavra da terra, para a tornar fértil. Do lado ocidental dos Senufo vê-se em maior número figuras femininas, exibindo penteados em crista, que se prolongam por cima da fronte, como um grande bico lembrando o calau, pássaro que reúne as propriedades de vida e sua continuidade. Estas esculturas de estilo particular, representam também os antepassados, geralmente sentados em bancos de quatro pés. Este mesmo motivo encima as bengalas-troféus dos bons agricultores. Elas são fincadas nos campos, para santificar o trabalho e torná-lo profícuo. A iconografia Senufo ainda é conhecida com os pássaros monumentais Setyen. São esculturas eretas como seres humanos. O grande bico muito comprido e encurvado, (lembranças do calau), toca o abdômen volumoso, em sinal de fecundação e para assim captar as forças vivas do universo. Essas imponentes esculturas, cuja base invariavelmente é redonda, são por vezes ocas, servem também em certas ocasiões, como capacetes monumentais onde são enfiadas na cabeça dos iniciados da Sociedade do Poro, marcando importantes momentos da vida religiosa, lembrando alguns episódios primitivos da história cultural.
Além das sociedades masculinas, voltadas ao aprendizado artesanal de ferreiro e entalhador em madeira, o qual, por sua vez, vincula-se ao conhecimento, há os rituais fúnebres, destacando-se outro tipo de grupamento, agora feminino, cuja sociedade chama-se Sandongo. Os membros dessa sociedade praticam a adivinhação e, assim, entram em contato com os ancestrais, tendo também poderes para invocar chuvas, geralmente nos períodos de plantio nos campos. Pelo seu rigor e austeridade, a arte dos Senufo, embora muito diversificada em estilizações e soluções pessoais, apresenta-se, ainda, comprometida com o universo Sudanês.
Nome (catálogo)
GRUPO CULTURAL SENUFO